segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Gramsci: da Arte à "Pedofilia" 5

Quero pedir escusas para os leitores pela demora em escrever a sequencia do ensaio que estou fazendo sobre a obra de Antonio Gramsci, mas a correria do trabalho e alguma dificuldade com a pesquisa me fizeram atrasar um pouco. Mas não deixaria de continuar o trabalho, em respeito aos amigos que prestigiam o Blog.

No último texto, eu mencionei um grupo de pensadores marxistas dos anos 1920, que se tornaram importantes para a propagação do pensamento gramsciniano e de uma, digamos, "adequação" do comunismo com a sociedade ocidental (principalmente a norte americana), a chamada "Escola de Frankfurt". Esta organização composta por intelectuais esquerdistas, também conhecida como "Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt", prosperou pela década de 1920, na Alemanha, se aproveitando da decadência da Republica de Weimar. Esse instituto se aproveitou dessa "decadência" para propagar seu pensamento por todo o País.

Quando Hitler é eleito Chanceler, em 1933, os membros da Escola de Frankfurt fugiram da Alemanha para os Estados Unidos. Foram "abrigados" pela Universidade de Columbia e de lá começaram a divulgar seu pensamento e sua doutrina. O foco inicial do trabalho da Escola de Frankfurt nos Estados Unidos foi para o que eles consideravam as "maiores" injustiças do sistema capitalista americano e começaram a colocar em prática seu plano de iniciar uma "Revolução" nos EUA.

Mas como se daria essa tal "Revolução"?

Um dos mais notáveis membros da Escola de Frankfurt, chamado Max Horkheimer, começou a difundir o conceito de que a família tradicional americana  e sua importância no tecido social do País, era um passo importante de aproximação dessa sociedade com o Fascismo do qual eles haviam fugido. Para justificar sua opinião, Horkheimer declarou:

"Quando a criança respeita na força de seu pai uma relação moral e aprende deste modo a amar o que sua racionalidade entende como um fato, ele experimenta o seu primeiro treino do relacionamento autoritário burguês"

Em seu livro: "A Ideia do Declínio na Sociedade Ocidental", Arthur Herman faz uma analise crítica da teoria de Horkheimer, acrescentando alguns aspectos importantes para consolidar o "Combate" à família tradicional. Herman disse:

"A família moderna tipica envolve, portanto, uma resolução sado-masoquista do complexo de Édipo, produzindo uma deficiência psicológica, a personalidade autoritária. O ódio do individuo pelo pai é suspenso e permanece por resolver, tornando-se, no seu lugar, em uma atração pela figura autoritária que ele obedece de forma inquestionável."

Percebam ai a intenção da Escola de Frankfurt em colocar a família tradicional como sendo uma forma fácil de propagação do Fascismo, gerando assim, figuras carismáticas como Hitler ou Mussolini. esses homens, segundo esses esquerdistas, seriam fruto da "personalidade autoritária" gerada pela família tradicional e pela cultura ocidental capitalista. (ai eu faço uma provocação: E as figuras autoritárias como Lenin, Stalin, Pol Pot, Mao Tsé Tung e Fidel Castro, dentre outros, seriam fruto de quê?).

Fica muito clara o objetivo dessa guinada da esquerda para a questão cultural. Não era possível fazer uma Revolução, sem conquistar os "corações e mentes" (olhai o que escreveu Gramsci!!!). Para que se implementasse uma nova cultura, era necessário destruir a cultura vigente. E a melhor maneira de atingir esse objetivo era justamente atacando a família e a religião, dois pilares fortes de resistência ao ideário comunista.

Em seu livro: "A Personalidade Autoritária", Theodor Adorno, outro expoente da Escola de Frankfurt, nos descreve que os Estados Unidos estavam "prontos" para produzir o seu próprio Fascista "Doméstico", segundo ele, a sociedade americana era racista e anti-semita, como apresentava uma visão quase de idolatria em relação a figuras autoritárias, tais como: Pais, policiais, clero, líderes militares e por ai vai... E tem mais, Adorno descreve uma sociedade americana focada em "coisas fascistas", como a eficiência, o asseio e o sucesso. (parece e é, um absurdo). Essas qualidades, insistia Adorno, revelavam internamente uma "visão pessimista e desdenhosa da humanidade" e isso acabaria levando os EUA, para o Fascismo. (vejam o conceito explicito de que a família tradicional é "maléfica" para a construção da "sociedade perfeita", a sociedade comunista).

Fiz questão de citar a Escola de Frankfurt para ilustrar tudo que venho colocando sobre a obra de Gramsci, sobre a sua busca de destruição da cultura judaico-cristã-ocidental. Gramsci considerava crucial para o sucesso de seu intento é o desaparecimento de todo o estilo de vida e toda a civilização passada da memória coletiva. Nosso País de outrora, das vidas não reguladas, das cidades mais limpas, do não "politicamente correto", da liberdade e da alegria, índices de criminalidade menor. um estilo de vida mais voltado para a família e para valores tradicionais, já não se encontra vivo na memória da maioria de nós. Se isso desaparecer por completo, não haverá mais nenhuma resistência à uma nova sociedade marxista, o que deixa claro a eficácia das ideias gramscinianas.

Quero deixar claro (se é que precisa) que após mais algumas gerações, se esse condicionamento social massificado, vai alterar completamente a consciência e o cotidiano  da sociedade, gerando crises estruturais brutais dentro desta mesma sociedade. Essas crises serão visíveis em todos os segmentos do País. Os meios de comunicação de massa, as universidades, as artes, enfim, tudo está sendo arduamente "aparelhado" durante quase 60 anos e seus resultados começam a ganhar força a cada geração que passa. Quando comecei a escrever esse ensaio e coloquei seu título, alguns leitores questionaram o sentido de colocar a palavra "Pedofilia". A resposta é simples...o que aconteceu no MAM (a exposição em que crianças eram estimuladas a tocar em um homem nu) não é Pedofilia, não, não é mesmo!

O que aconteceu no MAM é um passo para que, daqui uns 15 ou 20 anos, a Pedofilia passe a ser encarada com "naturalidade", deixando de ser considerada um crime. Caso isso venha a acontecer (e acontecerá, se nada for feito), quero que os amigos saibam que isso está diretamente relacionado com o que aquele italiano de temperamento forte, pensamento bem construído, escreveu em seus últimos 09 anos de vida, dentro de uma prisão da Itália de Mussolini!!!




terça-feira, 10 de outubro de 2017

Gramsci: da Arte à "Pedofilia"! 4

Neste quarto texto abordando um pouco do trabalho de Antonio Gramsci, eu vou me recordar de uma conversa que tive no sábado a tarde, tomando café no centro de Porto Alegre. Ao visualizar um show que se transformou em uma caminhada de pessoas do mundo evangélico e ao ser questionado "por que"a aquelas pessoas estavam ali, não pude deixar de lembrar do que venho estudando sobre Gramsci.

Em sua obra "Admirável Mundo Novo" (uma obra fundamental para se entender o totalitarismo contemporâneo), Aldous Huxley escreve uma frase que acaba por identificar o pensamento que Gramsci procurou passar aos seus camaradas comunistas. a frase é esta:

"O Estado totalitário realmente eficiente seria aquele onde o Todo-Poderoso executivo dos chefes políticos e o seu exercito de gestores controlariam uma população de escravos que não precisariam ser coagidos, porque amariam a sua servidão"

Reparem na força dessas palavras escritas por Huxley, elas nos mostram muito do que Gramsci pensava sobre a "maestria da consciência humana" (e nem acredito que Huxley tivesse algum tipo de contato com a teoria de Gramsci). Imagine pessoas livres que marcham como zumbis, sem nenhuma coação ou emprego de força, para uma escravidão total, aquela que ao entrar, dificilmente se consegue sair (lembram da marcha de evangélicos que falei no começo do texto?). essa é a proposta com a qual Gramsci idealizou a sua obra. tomando conta da consciência dos indivíduos, seria desnecessário qualquer emprego de força ou de campos de trabalhos forçados, como ele presenciara na URSS de Lenin e Stalin.

Mas o amigo leitor pode se perguntar: Como que uma ideologia consegue obter o domínio dos padrões de pensamento que estavam colocados na cultura das sociedades a milhares de anos??? quem vai te responder, amigo leitor, é Gramsci!!! De acordo com ele, o domínio da consciência de quantidades enormes de indivíduos será conseguido através do controle, por parte dos comunistas ou seus aliados, das Instituições culturais, as igrejas, a educação, os jornais, as revistas, as mídias digitais, a literatura, a música, o cinema e assim por diante (será que ficou claro o que acontece no Brasil, quando artistas se colocam "contra a censura", quando na verdade são apenas marionetes nas mãos de quem realmente detém o poder cultural??? Ou o "por que" do Fantástico fazer uma matéria defendendo o "fim da Intolerância"???).

A coisa é tão bem trabalhada que nem precisa se ter o controle sobre toda a informação, basta controlar as mentes que assimilam essa informação...perante tais condições, uma posição séria acaba por desaparecer, pois os indivíduos não serão capazes de entender os argumentos dos opositores do marxismo (você, com certeza, já ouviu as alcunhas: "coxinha", "fascista"...dentre outras) . Dessa forma, Huxley tem razão quando escreveu que os homens irão "amar a sua servidão" e nem perceberão o quanto se tornaram escravos e perderam a sua liberdade. liberdade está longe de ser uma qualidade do comunismo e de seus similares, o conceito é apenas usado como uma forma de propaganda.

Mas como todo processo, a conquista hegemônica de uma sociedade tem suas etapas e no caso do pensamento de Gramsci, essas etapas são:

1 - Como o Cristianismo é o principal "inimigo" a ser atacado, as igrejas são transformados em "clubes" politicamente motivados, que dão enfase a "justiça social" e no igualitarismo, e onde as doutrinas milenares e os ensinamentos morais são "modernizados" ou reduzidos à uma condição de irrelevância (vocês já ouviram falar em "Teologia da Libertação", nas eclesiais de base, em alguns que dizem que Jesus foi o primeiro comunista e por ai vai...)

2 - A educação tradicional é substituída por currículos escolares mais "emburrecidos" e "politicamente corretos" e os padrões acadêmicos são nivelados por baixo. Se substituí a competência e o conhecimento, por questões políticas e ideológicas.  (vide a "Pedagogia do Oprimido" de Paulo Freire, que em nenhum lugar no mundo se mostrou eficaz, mas aqui no Brasil é quase um dogma. E a questão de cotas raciais nas universidades).

3 - Os órgãos de informação são moldados para serem instrumentos de manipulação em massa e instrumentos de assédio e de descrédito das instituições tradicionais (voltemos a matéria do Fantástico, as pautas do programas de entretenimento e das novelas...)

4 - Os membros tradicionais e conservadores do clero são caracterizados como falsos e os homens e mulheres com esse perfil são chamados de hipócritas (vide o que falam sobre o Papa Bento XVI e o que se propaga sobre todos que se colocam como opositores ao marxismo)

A Cultura deixa de ser um suporte de apoio a herança nacional ou uma ferramenta de transmissão dessa herança para o que virão em seguida e passa a se tornar um meio de destruir as idéias. Neste aspecto eu acabei pesquisando um autor que eu não conhecia, mas que trata muito bem sobre o tema chamado Harold O.J Brown (um teólogo norte-americano), que escreveu: "Se destrói as ideias, apresentando aos jovens não os exemplos heroicos e sim, apresentando deliberadamente os exemplos degenerados"... Querem um exemplo aqui no Brasil? Dom Pedro II é retratado como um bobo, um preguiçoso, quando na verdade foi o maior estadista deste País e Zumbi dos Palmares, uma assassino escravagista, virou herói pela libertação dos negros.

Em outro patamar, a cultura tradicional Cristã é qualificada como "repressiva", "eurocêntrica", "racista", "machista" e, portanto, indigna de nossa devoção. em seu lugar o "primitivismo" puro mascarado como "multiculturalismo"  é apresentado como um "novo" modelo. algo mais "atual" com os "novos tempos".

O casamento e a família que são os alicerces de nossa sociedade são atacados e subvertidos. O casamento é caracterizado como uma conspiração dos homens para perpetuar a um sistema perverso de dominação sobre as mulheres e as crianças (engraçado é que se luta por "Casamento" entre pessoas do mesmo sexo, mesmo sendo uma "conspiração" para manipular). Segundo Gramsci e seus seguidores, a família tradicional é precursora do Fascismo e do Nazismo e de todas as formas de exploração. parece absurdo, não é? Mas está lá, na obra de Gramsci...se dê ao trabalho de pesquisar!!!

Para entender um pouco mais sobre essa visão Gramsciniana sobre família é necessário conhecer um pouco sobre uma vertente de pensadores que estudei a muito tempo atrás, mas que em decorrência desta produção, estou estudando novamente e, em breve, escreverei o texto de número 5 que falará sobre a "Escola de Frankfurt"  e suas influências sobre a chamada "Nova Esquerda", que de nova só tem o nome. Mas isso fica para um próximo texto... (segue)


Gramsci: Da Arte à "Pedofilia"! 3

Continuando a série de textos sobre Antonio Gramsci, quero começar a abordar um pouco do conteúdo de sua obra, de seu pensamento e o tamanho dessa influencia nos dias de hoje. tanto no aspecto político, mas principalmente no aspecto cultural...

Pois bem, como vimos anteriormente, Gramsci não concordava com a maneira que a doutrina marxista era empregada por seus dirigentes e começou a analisar de que forma poderia contribuir para que a doutrina marxista pudesse lograr existo, mesmo sabendo que Marx havia cometido erros de avaliação (erros feios, por sinal), Antonio cultivava, em seu intimo, a ideia de que poderia contribuir com a doutrina nem que para isso, tivesse que atacar alguns dogmas do movimento.

Seu primeiro ponto a ser avaliado era de como se tornar hegemônico, com uma doutrina que anteriormente só havia utilizado do medo e da violência para se impor. Gramsci deduziu que o mundo ocidental havia sido saturado pelo Cristianismo por mais de 2000 anos e que o Cristianismo ainda dominava o pensamento do ocidente e a conduta moral da Europa e nas Américas. Na prática...a civilização e o Cristianismo se encontravam intimamente ligados. O Cristianismo havia se tornado tão presente no cotidiano das pessoas, até os não cristãos que viviam em terras cristãs, que se tornava uma barreira quase insuperável para um novo tipo de civilização, a tal civilização revolucionária que os marxistas sonhavam implantar.

Todas as tentativas de derrubar essa barreira tinham sido em vão e acabaram gerando uma força de reação maior ainda. Devido a essa reação, Gramsci avaliou que seria necessário um ataque mais sutil ao inimigo, nada de ataques frontais e abertos, era necessário entrar na mente coletiva da sociedade de forma gradativa, durante anos e anos, buscando moldar essa mente para que saísse dos padrões cristãos e fosse se adequando cada vez mais ao ideário preconizado pelos marxistas.

Mas tinha algo mais além disso...

Enquanto que os marxistas-leninistas tinham um asco em relação aos esquerdistas que não eram comunistas, Gramsci entendeu que era necessário unir forças com esses segmentos, o que seria essencial para uma vitória comunista. Na época de Gramsci...esses esquerdistas eram organizações "anti-fascistas", sindicatos e grupos políticos socialistas. Hoje em dia, esses segmentos são: Feministas, grupos anti-policia, ambientalistas extremistas, grupos de direitos civis, congregações religiosas esquerdistas e por ai vai. estes grupos, ao lados dos comunistas confessos e sob a inspiração de Gramsci, acabaram criando uma frente unida para transformar e subverter a cultura Cristã.

Resumindo...a proposta de Gramsci era bem simples, consistia na renovação da metodologia comunista e a racionalização e adequação das estratégias ultrapassadas de Marx. É importante colocar que Gramsci tinha uma visão futura extremamente marxista e ele acatava a visão de mundo marxista, a diferença estava na forma como essa visão de mundo chegaria a vitória. Gramsci escreveu:

"...Pode e deve existir uma "hegemonia política" mesmo antes de se assumir o poder governamental, e de modo a que se possa exercer a liderança política ou hegemônica, não se pode contar apenas com o poder ou com a força material que são dadas pelo governo."

Gramsci quis dizer que cabe ao marxista conquistar a mente e o coração das pessoas e não somente depositar as esperanças somente na força ou no poder.

Além de tudo isso, Gramsci deixou claro à todos os marxistas que era necessário deixar de lado alguns de seus preconceitos de classe na sua luta pelo poder, procurando até absorver elementos característicos das classes burguesas. Antonio chamou esse processo de: "A absorção da elite das classes inimigas". Isso não somente fortaleceria o marxismo com sangue novo, como enfraqueceria o inimigo ao causar nele a perda de talento. Trazer o melhor dos filhos e filhas da burguesia e coloca-los sob a influencia comunista, escreveu Gramsci: "Resultará na sua decapitação, tornando-as impotentes" (ele se refere ai as forças anti-marxistas).

Resumindo a estratégia de Gramsci...não seria através da força bruta ou do terror que se transformaria o mundo em uma sociedade melhor (na visão dele, uma sociedade comunista, obvio). Em vez disso, será conquistando a mente e o coração das pessoas e "roubando" as mentes mais talentosas do inimigo que o marxismo irá triunfar e chegaremos ao "paraíso na terra", proposto por Marx. (entendem o porque de tantos jovens e artistas criativos serem tão inclinados a ser "de esquerda"???)

No próximo texto eu quero falar sobre como a doutrina de Gramsci afeta até mesmo os segmentos não marxistas, criando verdadeiros "escravos voluntários" ou a conhecida "massa de manobra" que é tão comum nos dias de hoje, seja nos movimentos de esquerda, nas igrejas ou até mesmo nos grupos que querem combater o comunismo...mas isso é assunto para outro texto... (segue)


Gramsci: Da Arte à "Pedofilia"! 2

Seguindo a linha de raciocínio do texto anterior, quero falar agora sobre a influencia dos textos de Gramsci na estratégia marxista de dominação do ocidente. 

Mas ainda é necessário que, antes de nos aprofundarmos no pensamento de Gramsci, é necessário falar sobre a "Revolução Vermelha". Pois é a partir dela, que Gramsci começa a "dissecar" sua teoria, sua principal contribuição é sair do dogma econômico dentro da teoria marxista e aumentando a sua habilidade de subverter a sociedade Cristã. 

Olhem só...se fossemos levar a sério a teoria de Marx e Lenin, seríamos levados a crer que a revolta dos operários é inevitável e que para isso acontecer, bastava a mobilização das classes trabalhadoras através da propaganda para atingir esse intento. Essa premissa está totalmente equivocada (principalmente nos dias de hoje, onde a tal classe trabalhadora nem de longe possui os mesmos anseios de 150 anos atrás), mas mesmo assim manteve-se como uma verdade inquestionável.

Vale ressaltar uma opinião aqui sobre a movimento comunista, a sua essência era composta por tiranos impiedosos e criminosos, perfeitamente cientes dos erros intelectuais do marxismo (como o que relatei no paragrafo anterior), porém dispostos a empregar os meios necessários para obter ou se manter no poder. Para tais conspiradores cheios de ódio e rancor, a ideologia é apenas uma tática para mobilizar apoiadores e racionalizar algumas ações criminosas, as tornando "explicáveis" e "aceitáveis" como forma de manter as tais conquistas da classe operária. 

Portanto, meus caros, aqueles que aceitam a ideia de que "o comunismo está morto" cometem um erro ao não entenderem a natureza do inimigo. Existe uma frase que ilustra bem o que quero dizer: "O comunismo não é uma ideologia no qual se acredita e sim uma conspiração criminosa da qual se faz parte" (James Thornton). essa frase de Thornton serve como parâmetro para entendermos as ações de Lenin e Stalin ao assumirem o poder. O primeiro, que se dizia um defensor ferrenho da doutrina de Marx, logo que tomou o poder, viu a oportunidade de modificar a doutrina, de modo que estivesse de acordo com os seus interesses. O mesmo fez Stalin (em proporções bem mais cruéis).

É um erro proposital (fomentado por todos os partidos comunistas) acreditar que os Bolcheviques tomaram o poder através de uma revolta de operários e camponeses (nem industria a Russia tinha), chegaram ao poder através de um golpe de Estado (organizado por uma elite marxista altamente disciplinada) e que só foi consolidado através de uma guerra civil que veio depois (lembrando que o Czar estava com seu exercito enfraquecido, por participar da Primeira Grande Guerra). Não pode ser esquecido outro ponto bastante omitido pela retórica comunista: Os Bolcheviques receberam ajuda financeira das elites políticas e bancárias do ocidente, para bancar suas ações.

Vale ressaltar que em nenhum ponto da Europa Oriental, o Comunismo chegou através de uma revolução popular e sim, em função de uma imposição por parte do Exercito Vermelho que conquistou esses territórios dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Na China, o Comunismo chega ao poder através de uma guerra civil, com ajuda da União Soviética (caso da Coréia do Norte). em Cuba, quando Fidel Castro toma o poder, nem comunista ele se dizia ser. Isso somente passa acontecer anos depois, quando precisou da ajuda soviética para enfrentar o embargo norte americano.

Em nenhum lugar do mundo, o Comunismo se implantou através de uma revolta popular. sempre se estabeleceu com guerras civis ou subterfúgios econômicos escusos. Os únicos levantes realmente revolucionários e populares do século XX, ocorreram em "contra-revoluções" anti-marxistas...como em Berlin, 1954, na Hungria, em 1956. 

Nem a decantada "Primavera de Praga" pode ser considerada uma revolta popular, pois foi orquestrada pelo chefe de Estado da Tchecoslováquia Alexander Dubcek (ainda vou escrever sobre a "Primavera de Praga", em outra oportunidade).

Quando analisamos o século XX, podemos perceber quão Marx estava errado em suas suposições de que a maioria do proletariado e do campesinato estavam insatisfeitos com a sua posição dentro da sociedade, e se sentiam alienados desta mesma sociedade e que eles tinham algum tipo de ódio ou rancor da classe média ou da classe alta, ou que eles tinham algum tipo de pré disposição para um movimento revolucionário.

Antonio Gramsci foi um brilhante estudioso de filosofia, história, sociologia e línguas e esta formação lhe deu uma excelente compreensão de como entender o ser humano, como também, da moral da sociedade ocidental da primeira metade do século XX. Como eu já disse aqui antes, a percepção aguçada de Gramsci, mostrou à ele que a ideia comunista de uma "Revolução Espontânea", causada por algum processo de inevitabilidade histórica, não passava de uma ilusão, um engodo.Mesmo que as promessas comunistas tivessem um grande atrativo para os menos favorecidos, a brutalidade comunista e pelo totalitarismo de seus líderes. Essa violência toda fez com que as classes aristocráticas e burguesas se organizassem em ações militantes mais organizadas, que acabaram por barrar a expansão comunista.

Em sua cela, de certa forma "presenteado" pelo regime Fascista, Gramsci colocou a sua brilhante mente para analisar esses problemas e buscar uma alternativa para "salvar" o comunismo e lhe apresentar uma nova forma de abordagem e conquista...é o que veremos nos próximos textos sobre o tema... (segue)

Gramsci: Da Arte à "Pedofilia"!

Um dos aspectos mais interessantes de se estudar História é que algumas vezes topamos que personagens históricos que nasceram nas condições mais adversas, sem nenhuma perspectiva de se tornar alguém importante ou influente e, essa humilde personagem, acaba por mudar ou influenciar os destinos de seus contemporâneos ou de várias gerações que virão depois. essas personagens podem ser pessoas de ação ou pensadores, mas de qualquer forma, suas atividades podem acarretar transformações imensas nas gerações a seguir.

Nesse cenário quero abordar a figura de Antonio Gramsci, que foi um homem de ação e principalmente, um homem de pensamento. E seja qual for a situação política ou cultural que esteja ocorrendo nos dias de hoje, tenha certeza que existe alguma "contribuição" do pensamento Gramsciliano por trás desta situação.

Não tenho aqui a pretensão de "dissecar" todo o pensamento de Gramsci, confesso me faltar arcabouço intelectual para isso, mas os anos de estudos e as constantes observações que faço do cotidiano, me permitem tecer algumas considerações sobre o que é e quais os efeitos do pensamento de Gramsci na cultura do ocidente e sua tentativa de "destruir" com aquilo que conhecemos como Cultura. Mas para começar a escrever sobre seu pensamento, é interessante falar um pouco do sardenho e irrequieto pensador:

Como quase todo jovem italiano que tinha um minimo de leitura política no inicio do século XX, Antonio se apaixonou pela teoria Marxista. Estudou História e Filosofia na Universidade de Turim, se filiou ao recém criado Partido Socialista Italiano. Com o final da Primeira Guerra Mundial, Gramsci criou o seu próprio jornal, o "Nova Ordem" (já pelo título do jornal, podemos ver o inicio do que viria ser a "obsessão filosófica" de Gramsci) em seguida, ajuda a criar aquele que seria um dos maiores partidos comunistas do ocidente, o PCI (Partido Comunista Italiano).

Com a ascensão de Mussolini ao poder em 1922, resta ao jovem Antonio fugir da Itália fascista e procurar asilo no lugar mais óbvio para um Marxista convicto que nem ele: A União Soviética! No entanto, a "Mãe Russia" não era bem o que Gramsci imaginava. O seu enorme poder de observação pode perceber a enorme distância entre a Teoria e a Realidade. Como um marxista fiel aos preceitos econômicos, políticos e históricos, Antonio ficou muito perturbado com a vida na URSS exibir quase nada daquilo que Lênin havia prometido com a Revolução de 1917 (aquele "Paraíso" na Terra, estava longe de existir).

Pelo contrário, Gramsci percebeu que o tal "Paraíso" da classe operária mantinha o seu domínio somente através do terror, das matanças e através do medo de "visitas noturnas" que acabavam levando o visitado ou para a Sibéria, em trabalhos forçados ou para as mãos dos carrascos de plantão. Gramsci percebeu também, que era crucial para o Estado criado por Lenin, era a constante difusão da propaganda, dos slogans e das mentiras obvias. Tudo isso desperta no jovem idealista uma enorme desilusão e um começo de sua forma de pensar a Revolução Comunista, que viria a ser o conceito de "Hegemonia".

Mas vamos adiante... Quando Lenin morre, em 1924, e Stalin assume o poder, a situação de Gramsci na URSS começa a ficar desconfortável. Stalin não somente aprofunda as táticas de governo Leninistas, como começa a transformar a agrária URSS, em uma potência industrial e militar. Como para tal, Stalin começou a perseguir, exilar e matar seus oponentes e até aliados que pudessem colocar em risco seus projetos, Gramsci entendeu que seria "menos perigoso" para ele voltar para a Itália, mesmo essa Itália sendo governada por Mussolini, pasmem!!!

Ao voltar para casa, Gramsci tem como objetivo, obviamente, lutar contra o regime de Mussolini e, obviamente também, sua presença em solo italiano gerou o temor por parte do governo de quais seriam suas ações e quais "problemas" ele poderia criar seja como um opositor feros ou como agente de uma nação estrangeira. E é ai que o governo de Mussolini vai criar a condição física necessária para que Antonio Gramsci se tornasse um dos maiores e mais perigosos influenciadores do século XX, o governo Fascista ordena a sua prisão!

E é justamente preso, que Gramsci irá se revelar o mais genial adversário que a cultura ocidental poderia ter. Passou seus últimos 9 anos de vida preso e lá escreveu 9 volumes, que passaram a ser conhecidos como: "Cadernos do Carcere" (são textos sobre História, Sociologia, Teoria Marxista e o mais importante de todos os temas Estratégia Marxista). a importância destes "Cadernos" está no fato de criar uma nova mais eficaz teoria Marxista, que faz a tese de "Revolução Espontânea" de Lenin parecer coisa de principiante. Lenin propunha conquistar voluntariamente o mundo para o marxismo. Gramsci foi analisar aspectos mais profundos da História e da Psicologia humana, tornando a estratégia de cooptação marxista algo mais concreto e não baseada em desejos vazios e ilusões.

A importância dos escritos de Gramsci é tão grande, que serei obrigado a escrever outros textos sobre seus trabalhos (uma sequencia deste, que acabou se tornando um texto de "apresentação" da personagem). Buscarei mostrar nos outros textos como um sujeito que morreu na cadeia, de tuberculose e em completa solidão, pode se tornar um dos pensadores mais poderosos da humanidade e como seus escritos influenciaram e influenciam até hoje, os rumos que a estratégia marxista vem tomando nos dias de hoje... (segue)


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Privacidade existe?

Com o advento das novas tecnologias que a cada dia fazem parte de nosso cotidiano, a onda constante de violações de privacidade que essas tecnologias trazem se torna cada dia mais forte, fica difícil entender o que vem acontecendo com a nossa intimidade ao longo do tempo. Porém duas datas, uma recente, outra mais antiga, talvez ajudem a explicar o fenômeno: 15 de dezembro de 1890 e 23 de maio de 2017 são os dias mais importantes na história da privacidade. 

A primeira representa sua criação enquanto conceito legal e a segunda, embora tenha tido pouca repercussão, simboliza algo que se assemelha ao seu fim. 
No dia 15 de novembro de 1890, o futuro juiz da Suprema Corte, William Brandeis, e o advogado Samuel Warren, publicaram um artigo na Harvard Law Review, “The Right to Privacy” (“O Direito à Privacidade”), que pedia o reconhecimento de um novo direito legal de, em suas próprias palavras, “ser deixado em paz”. 
O motivo do texto foi o surgimento de uma nova tecnologia: a fotografia instantânea, que permitia que qualquer pessoa na rua fosse retratada e encontrasse sua imagem no jornal no dia seguinte (vejam o dado curioso...a preocupação que essa tecnologia que surgia, a fotografia, provocaria no dia a dia do cidadão)
Esse argumento é a base com a qual abordamos nossa prerrogativa à privacidade hoje em dia. O direito proposto de “ser deixado em paz” fez uma distinção fundamental entre ser observado, que pode acompanhar qualquer ato feito em público, e ser identificado, que é uma circunstância isoladora e mais intrusiva. Nós nos permitimos ser observados constantemente, mas raramente consentimos na identificação. 
Hoje, porém, essa diferença praticamente desapareceu graças ao rápido avanço das tecnologias digitais e da ascensão, igualmente ligeira, de um campo comumente chamado de ciência dos dados. O que considerávamos privacidade está morrendo, se é que já não morreu há tempos. Essa é uma das características do fenômeno conhecido como "Quarta Revolução Industrial", assunto que já abordei aqui em outra postagem.
Analisem com atenção esse fato ocorrido em 2012. Neste ano, a Suprema Corte norte-americana, julgando o caso "União contra Jones", avaliou a constitucionalidade da colocação, pela polícia, de um GPS no carro de um traficante para monitorar seus movimentos sem precisar de mandado. A justiça determinou que esse tipo de rastreamento passava dos limites de simples observação pública para identificação privada e, portanto, violava a expectativa de privacidade do réu.  Ou seja, o acompanhamento contínuo, ainda que público, excedia os limites da simples observação e que, consequentemente, a vigilância policial era inconstitucional (acreditem...basta ir ler o caso, está registrado lá)
Cinco anos se passaram desde essa decisão da Suprema Corte dos EUA, o mesmo argumento, que já não parecia fazer sentido na época em que foi colocado, faz muito menos sentido, afinal, o tal “acompanhamento contínuo” faz parte de nossa vida digital diária, e é por isso que o que aconteceu em 23 de maio de 2017 é tão importante....como veremos a seguir:

No tal dia 23 de maio de 2017, o Google anunciou que começaria a relacionar bilhões de transações com cartão de crédito ao comportamento online de seus usuários, que já rastreia com dados de seus próprios aplicativos, como YouTube, Gmail, Google Maps e outros. Com isso, pode provar aos anunciantes que seus anúncios na internet levam os usuários a fazer compras nas lojas físicas. Esse novo programa já é objeto de um processo, movido pelo Centro de Informações Eletrônicas Privadas, que tramita na Comissão Federal de Comércio. 
O Google pode ser até o primeiro a fazer essa conexão formalmente, mas não é o único: entre as empresas de tecnologia, a sanha é de criar perfis do usuário online da forma mais abrangente possível — e a pressa é motivada pela necessidade de lucrar com os serviços online oferecidos gratuitamente. 
Na prática, isso quer dizer que não podemos mais esperar uma diferença significativa entre observação e identificação, ou seja, se podemos ser observados, podemos ser identificados. Em um estudo recente, por exemplo, um grupo de pesquisadores mostrou que os dados de localização de celular agregados (ou seja, os registros gerados por nossos celulares ao interagirem anonimamente com as torres próximas) conseguem identificar o indivíduo com uma precisão que varia entre 73% e 91%. 
E mesmo sem esses métodos avançados, descobrir quem somos, do que gostamos e o que fazemos nunca foi tão fácil. Em junho, as fichas de registro de 198 milhões de eleitores norte-americanos vazaram na rede. Graças aos rastros gerados por nossas atividades online incessantes, é praticamente impossível se manter anônimo na era digital. 

Mas então, o que podemos fazer?

É essencial regulamentar o que as organizações e governos podem efetivamente fazer com nossos dados. Basicamente, o futuro da nossa privacidade está na forma como nossos dados são usados, e não em como ou quando podem ser coletados. Com exceção daqueles que optam por ficar totalmente fora do mundo digital, o controle da coleta de dados é causa perdida. 
Essa é parte da iniciativa tomada pelas agências reguladoras europeias. Um dos fundamentos da nova estrutura regulatória de dados da UE, conhecida como Regulamentação Geral para Proteção de Dados, ou GDPR (na sigla em inglês), é o conceito de restrições baseadas em propósito. Assim, para que uma organização ou autoridade pública use dados pessoais de cidadãos dentro do bloco, ela primeiro precisa especificar para que serão utilizados.
O método é um contraste gritante com o que acontece nos EUA, que pode ser caracterizado como “vamos coletar os dados antes e fazer perguntas depois”. Sim, as empresas de tecnologia norte-americanas estipulam sua política de privacidade em uma declaração, mas quase sempre esses termos de serviço são comicamente ambíguos e geralmente equivocados. 
Sem dúvida, muitos defensores da privacidade acham difícil aceitar que o formato que usamos para a proteção de dados está totalmente obsoleto. Porém, se quisermos manter a capacidade de controle sobre os dados que geramos, devemos também admitir que o conceito antigo do “ser deixado em paz” já não faz mais sentido. Desde que eu li a obra "1984" de George Orwell (obra essa de 1949), cheguei a absoluta conclusão de que, o "Grande Irmão", profetizado na obra de Orwell, já está entre nós faz muito tempo.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Entrevista histórica

Sei que o texto ficou imenso...mas quem ler a reprodução da entrevista feita pela equipe do "Pasquim" (Sérgio Cabral, Millor Fernandes, Chico Junior, Paulo Garcez, Jaguar e Fortuna), no dia 05 de Maio de 1971, com uma das figuras mais controversas e lendárias do Rio de Janeiro...o pernambucano João Francisco dos Santos, mais conhecido como "Madame Satã"

O texto é histórico por relatar alguns fatos obscuro da malandragem carioca, da primeira metade do século XX...

Desfrutem da entrevista:

"A personagem da entrevista desta semana era lenda no meu tempo de menino em Botafogo. Uma espécie de gunfighter da Lapa, fechando bares e enfrentando as terríveis Polícia Especial e D.G.I. (Departamento Geral de Investigações), que enchiam de pavor quem andasse nas ruas, coisa que os garotos da época, na maioria, faziam. E havia o paradoxo aparente de homossexualismo de Madame Satã. Aparente, sim, porque e Julio César, Alexandre o Grande, ou, próximo de nós, Heydrich e Goering? Pensar que violência é característica heterossexual não passa de balela primitiva.

    Satã nos impressionou bastante, porque é um tipo completamente fora do nosso âmbito de experiência. Todos nós duvidamos de tudo, inclusive de nós mesmos. Convertemos nossos superegos em catedrais em que nos ajoelha­mos e pedimos perdão a nós mesmos, sem resultado. Satã tem certeza das coisas que faz. Eu disse, na entrevista, que ele me parece literatura, à parte mais sofisticado e legítimo do que Jean Genet (o que Sartre escreveria sobre ele, fico pensando). Não esconde o jogo. Se aceita como é. Há coisa mais dificil? Pra nós (um mítico nós e todos, bem entendido, mas os incluídos se reconhecerão) impossível.

    Eu diria mais: que Satã representa a verdadeira contracultura brasileira, que essa que aí está, apesar de seus valores intrínsecos e universais, nos foi imposta de fora pra dentro, o que às vezes é bom, outras, não. Já Satã emergiu deste asfalto, deste clima, deste ragu cultural brasileiro, que tentamos negar inutilmente, mas que, tal qual o rio do poema de Eliot, é um deus primitivo, capaz de adormecer, apenas e sempre vivo, vingativo e traiçoeiro. A sociedade urbana, de consumo, aqui, é puro verniz, descascando visivelmente. Outras forças, suprimidas, estão aí, poderosamente latentes, acumulando impacto.

    A inocência de Satã das coisas da moda elitista, de modelos de raciocínio, é completa. Mas nenhum de nós se sentiu tentado a ironizá-lo. Não por medo. Ele é bem mais educado do que a maioria dos grã-finos que conheço (um bom número, acrescento). Foi por respeito. Sentimos uma personalidade realizada. Quantos de nós podem dizer a mesma coisa? Nesse mundinho de classe média pra cima, que muita gente boa (tradução poderosa) imagina ser o Brasil, e que é, no duro, uma ínfima e arrogante minoria, pouco existe de igual em termos de tipo. Quem vai prevalecer? Não percam o próximo e emocionante capítulo.
                                                                          (Paulo Francis)

* * *
Sérgio - Quantos anos você esteve preso?

Ao todo eu tirei 27 anos e oito meses.

Sérgio – E há quantos anos você está liberdade

Há seis anos. Saí no dia 3 de maio, há seis anos.

Sérgio – Mas você continua morando na Ilha Grande?

Continuo morando na Ilha Grande porque eu achei que é um lugar onde eu posso viver mais sossegado, mais descansado das perseguições da polícia e mesmo da vida agitada que eu levava.

Millôr - Que idade você tem?

Tenho 71 anos de idade.

Sérgio - Com essa cara?! É verdade que você tem mãe viva, ainda?

Tenho sim, está com 103 anos e mora no interior de Pernambuco.

Millôr - Você é pernambucano?

Sou.

Millôr - Você está no Rio há quantos anos?

 Eu cheguei no Rio em 1907 e fui morar na rua Moraes e Vale, 27, ali no largo da Lapa.

Millôr - E que profissão você exercia?

Eu sempre fui cozinheiro. Até 1923 eu fui cozinheiro. Em 1924 eu ingressei na Casa de Caboclo.

Millôr - Que nível de instrução você tem?

Sou analfabeto de pai e mãe.

Millôr - Pelos seus amigos você é chamado como? De Madame Satã ou é chamado pelo seu próprio nome?

De Satã.

Millôr - Como é seu nome todo?

Meu nome todo é João Francisco dos Santos, sou filho de Manoel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição.

Millôr - Você tem consciência de que você é uma figura mitológica no Rio de Janeiro?

É o que diz a sociedade, não é? Só que tem que eu sou anti-social.

Millôr - Você sabe que nós aqui fazemos um jornal que é marginal. De modo que o fato de você ter uma vida um pouco à margem da sociedade só faz com que nós tenhamos uma grande emoção em falar com você. Agora, você ficou famoso na mitologia carioca, na lenda do Rio, porque você foi um homem que dominou a vida da Lapa, pelo menos esta vida de uma certa margem da sociedade do Rio, e você era famoso por ser o homossexual mais macho que já houve na história do Rio.

Isso é o que diz a história, né?

Sérgio - Mas você é homossexual?
Sempre fui, sou e serei.

Millôr - De onde vem a sua fama de extraordinária masculinidade? Eu sei que foi através de inúmeras brigas. Conte alguma coisa.

Eu comecei em 1928. Deram um tiro em um guarda civil na esquina da rua do Lavradio com a avenida Mem de Sá e mataram, né. Eu estava dentro do botequinzinho e disseram que fui eu. Então fui preso. Eu tinha 28 anos. Aí eu fui para o Depósito de Presos e daí para a Penitenciária e fui condenado a 26 anos. Na penitenciária, não. Na Casa de Correção.

Millôr - Segundo você, injustamente.

Injustamente.

Sérgio - Mas você não deu o tiro no guarda?

Não, o revólver é que disparou na minha mão. Casualmente.

Sérgio - Foi a bala que matou?

Não, a bala fez o buraco. Quem matou foi Deus.

Sérgio - Balas que saíram do seu revólver mataram quantos?

Bala que saiu do meu revólver só matou esse porque os outros era a polícia que matava e dizia que era eu.

Sérgio - Mas você usava muito era a navalha, né?

Às vezes, não era sempre não.

Chico - Eu ouvi dizer que você matou um com um soco.

Não, eu fui acusado de ter matado o falecido compositor Geraldo Pereira com um soco. Mas o caso foi o seguinte: eu entrei no Capela e estava sentado tomando um chope. Ele chegou com uma amante dele (ainda vive essa mulher), pediu dois chopes e sentou ao meu lado. Aí tomou uns goles do chope dele e cismou que eu tinha que tomar o chope dele e ele tinha que tomar o meu. Ele pegou o meu copo e eu disse pra ele: olha, esse copo é meu. Aí ele achou que aquele copo era dele e não era o meu. Então eu peguei meu copo e levei para a minha mesa. Aí ele levantou e chamou pra briga. Disse uma porção de desaforos, uma porção de palavras obscenas, eu não sei nem dizer essas coisas. Aí eu perdi a paciência, dei um soco nele, ele caiu com a cabeça no meio-fio e morreu. Mas ele morreu por desleixo do médico, porque foi para a assistência vivo.

Sérgio - Teve uma vez que você deu uma navalhada na traseira de um sargento. Como é que foi essa história?

Eu não dei navalhada na traseira do sargento não. Eu estava sentado ali no Canaã e entrou um sargento do Exército e me deu seis tiros. Não me conhecia, não sabia quem era eu, eu nunca tinha visto ele, não avisou nem nada, de uma mesa pra outra. Quando ele acabou de dar o último tiro guardou a Mauser e saiu pela porta afora. Eu olhei prum lado e olhei pro outro, não vi sangue e falei: bem, então eu estou vivo. E saí correndo atrás dele. Quando estava subindo ali a rua Taylor, parece que ele passou por uma cerca de arame farpado, sei lá, e se rasgou todo. Eu sei que ele levou quarenta e poucos pontos.

Millôr - Você ainda briga hoje, ainda tem energia?

Brigar eu não brigo porque eu nunca briguei, mas na minha casa a gente come o que Deus dá e o que faltar Nossa Senhora inteira.

Chico - Satã, você respondeu a quantos processos?

Eu tenho 29 processos, sendo 19 absolvições e 10 condenações.

Chico - E quantos homicídios?

Três.

Chico - E agressões?

Ah, meu filho, somente nove.

Millôr - Em quantas brigas você calcula que tenha entrado?

Ah, que eu não fui preso, deve ter umas três mil. Eu gostava da briga. Eu nunca briguei com paisano na minha vida. Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles prendam, botem na cadeia, processem, tá certo. Agora, bater no meio da rua fica ridículo. Afinal nós somos seres humanos. Eles achavam que eu estava conspirando contra eles, então já viu, né.

Millôr - Quer dizer que você tinha raiva da opressão policial.

Sempre tive e morro com ela.

Sérgio - Satã, me diga uma coisa: essa história de que você pegava garoto à força é verdadeira?

É coisa que eu nunca fiz na minha vida, porque era coisa que não precisava fazer. O senhor deve entender, o senhor que é da vida moderna, sabe muito bem que isso é uma coisa que não se precisa pegar ninguém à força.

Sérgio - Eu sempre ouvi falar, desde garotinho, quando eu ia passear na Lapa e falavam comigo: cuidado que o Madame Satã vai te pegar.

Conversa fiada, eu não era tão tarado assim.

Millôr - A Lapa foi durante muito tempo um centro de boemia. Você conheceu gente famosa, além dos marginais?

Fui amicíssimo do Chico Alves, fiz muitas serenatas com ele, Noel Rosa, Orlando Silva, Vicente Celestino.

Chico - Quem é que te deu esse apelido de Madame Satã?

Esse apelido de Madame Satã ganhei em 1938, no Bloco Caçador de Veados, depois passou para Caçador da Floresta e morreu com esse nome. Depois nasceu como Turunas de Monte Alegre.

Sérgio - Mas você era caçado ou caçador?

Eu era caçador.

Chico - Mas conta a história do apelido.

Bem, havia o baile de carnaval e o concurso. Então eu me exibi com a fantasia de Madame Satã no Teatro da República e ganhei o primeiro lugar. Ganhei um tapete de mesa e um rádio Emerson, feito um balezinho, ele abria do lado, assim, feito uma portinha. O último ano que eu desfilei foi em 1941. Eu estava preso, mas anulei um processo e vim passar o carnaval na rua. Desfilei com a Dama de Vermelho.

Sérgio - O que que você acha do Clóvis Bornay?

Eu vou te explicar uma coisa: eu não tenho o que dizer dessas bichas velhas, não.

Chico - Ainda agora nós estávamos conversando sobre Osvaldo Nunes. É verdade que ele briga bem?

Eu conheci o Osvaldo Nunes, mas ele não era cantor ainda. Mas eu não acho que ele brigue bem, não. De quando em quando eu fico sabendo dos escândalos que eles fazem por aí. Eu acho que do jeito que eles brigam não é briga, é escândalo.

Millôr - O Osvaldo Nunes declara publicamente que o homossexualismo dele veio através da prisão. Ele teria sido preso e foi violentado.

Conversa fiada, é mentira. É mentira porque na cadeia ninguém faz isso no peito.Tirei 27 anos e oito meses de cadeia e nunca vi ninguém fazer isso no peito. Fazem por livre e espontânea vontade porque querem fazer. Quando eu fui para a cadeia já era pederasta, já era viciado, nunca fiz isso no peito.

Millôr - Peraí, você está chamando isso de viciado? Eu não chamo de viciado não. Você está dando outro nome.

Eu não desdigo o que digo, mas para uma parte é.

Jaguar - Nesse negócio de prisão, o Lucena tá me falando aí, que todo criminoso primário tem que entrar em pua. É verdade isso?

Isso é conversa fiada.

Chico - E a história do xerife? O garoto novo entra na cela e o xerife, ó.
Houve a história do xerife.

Paulo Garcez – O Paulo Francis foi o nosso xerife.

Mesmo no tempo do xerife só se viciava quem queria. O sujeito chegava lá, filho de papai e mamãe, tinha o olho grande, apanhava o cigarro do chefe do alojamento, comia a comida do chefe do alojamento porque queria comer uma comidinha melhor, queria dormir na manta do chefe do alojamento, queria tomar banho com o sabão do chefe do alojamento, ora ...

Millôr - Alguma vez você já foi violentamente apaixonado? Você já foi casado no sentido homossexual?

Não, eu nunca fui dessas coisas não, esse negócio de amiguinho, casamento. Nunca fui porque sempre achei feio, achava ridículo. Esse negócio de andar apaixonado, de fazer escândalo no meio da rua, isso é pouca vergonha.

Millôr - E com mulher, você é casado?

Sou casado. Tenho seis filhos de criação.

Chico - Esse seu passado não influiu na sua relação com a sua mulher? Como é que ela encara o seu passado?

Se ela não quiser encarar, ela que se suicide. O que é que eu tenho com isso? Quando ela me conheceu já sabia minha vida, casou comigo porque quis casar.
Millôr - Você casou com que idade?

Casei com 34 anos.

Millôr - E está com a mesma mulher até hoje?

A mesma mulher.

Sérgio - Você disse que foi amigo do Francisco Alves. O que você achava dele?
O Chico Alves pra mim foi uma grande pessoa, não só como cantor, mas também como companheiro de farra e como amigo.

Sérgio - E Noel Rosa, era bom sujeito?

Noel Rosa já desceu de Vila Isabel como um bom sujeito, pelo menos como cantor e como companheiro.

Jaguar - Você conheceu a Araci de Almeida?

Araci de Almeida eu conheci menina, ainda, quando ela começou a gravar as músicas de Noel Rosa. Pra mim foi uma grande amiga e uma grande companheira. Era o meu tipo, o tipo assim que quando se queimava já viu, né.

Millôr - Nessas suas prisões qual foi o criminoso mais bárbaro que você conheceu?

O criminoso mais bárbaro que eu conheci na cadeia foi o falecido Feliciano.

Sérgio - O que é que ele fez?

Me parece que o crime dele foi em 1945 ou 1946. Ele tinha matado o sogro e botado fogo. Na cadeia, quase todo o ano ele matava dois. O último que ele matou foi o Gregório.

Millôr - Ah, ele é o tal que matou o Gregório. E você conheceu o Gregório?

Eu conhecia o Gregório desde o tempo de São Borja.

Sérgio - E o que você foi fazer lá?

Eu era muito amigo da família Mostardero, do Rio Grande do Sul, o capitão Manoel Mostardero, que veio ser diretor da penitenciária várias vezes, e eu ia sempre lá passear. O Gregório era cocheiro do pai do falecido Getúlio.

Millôr - E você foi amigo do Gregório (chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas)?

Amicíssimo, ele morreu nos meus braços. Eu estava a uns 15 metros quando ele levou a facada.

Millôr - Você quer contar a história?

O que eu sei é a legítima história, a verdadeira. Isso eu sei porque na época eu estava sumariando, porque tinha muito processo, e muitas vezes eu desci da Colônia para a penitenciária e trouxe muito bilhete do Feliciano para o Gregório e levei muita roupa e muito dinheiro para o Feliciano na Colônia. Mas a história é a seguinte: entrou em cana um rapazinho lá de São Borja, muito amigo do Gregório. Trabalhava na rouparia com o falecido Gregório, mas um dia o rapa­zinho brigou no pátio e foi para a Colônia, de castigo. O Feliciano, nesse tempo, era chefe do alojamento 2 na Colônia Penal Cândido Mendes, onde eu estava. Como Gregório era muito amigo do diretor, trouxe o rapazinho com ele na lavan­deria, mas depois o garoto começou com negócio de maconha e mandaram ele de novo para a Colônia. O Gregório, então, deixou ele lá pela Colônia e mandava sempre um dinheirinho. Cinqüenta, cem contos todo mês. Eu mesmo levei várias vezes. Aí o Gregório escreveu um bilhete pro Feliciano para que ele olhasse o garoto lá, para que ninguém mexesse com o garoto, fizesse sujeira.

Millôr - Havia algum interesse homossexual nisso, alguma coisa assim?

Não, não existia nada de pederastia. Era só amizade. Então o Feliciano ficou tomando conta do garoto lá. Mas aí o que é que o Feliciano faz? Pegou e vendeu o garoto.

Millôr - O que se chama vender?

Vendeu como escravo, para homossexualismo.

Chico - Mas o garoto era pederasta?

Não era mas foi. Alguém nasce sabendo? Então o rapazinho escreveu para o Gregório, pedindo que mandasse buscar ele porque estava sendo martirizado, porque o Feliciano vendia o garoto uma noite pra um, uma noite pra outro. Aí o Gregório mandou buscar o rapaz e ele quando chegou contou tudo ao Gregório. O Gregório pegou e disse: "É né, então eu vou cortar a mesada daquele nego safado porque ele não pode fazer isso".Aí o Feliciano lá na colônia arranjou com o diretor, que era um diretor muito bom, o doutor Carlos, pra descer. Aí ele veio e se virou para o Gregório e disse: "Olha, de hoje em diante você vai passar a me mandar 150 contos porque senão eu vou te arrancar o pescoço". O Gregório era um negro que não era covarde, não acreditou. Um ano depois, Feliciano desceu, foi direto à rouparia procurar o Gregório e disse que o Gregório tinha que indenizar ele naquele um milhão e pouco. O Gregório disse que não dava e contou o caso para o chefe de disciplina, o Souza. O Souza, então, falou que ia mandar o Feliciano de volta para a Colônia. Na noite de segunda-feira, saiu no boletim o nome do Feliciano na lista do pessoal que ia para a Colônia. O Feliciano procurou o Gregório e disse: "Olha, você vai me mandar para a Colônia, mas se eu fosse você eu ia falar com o diretor para me tirar da lista senão você vai se dar mal. Vou te matar, nego". E o Gregório: "Tu é de matar ninguém, nego, tu é de matar nada." De fato, cara a cara, ele não era páreo para o Gregório. No dia seguinte bem cedo o Feliciano foi embora para a Colônia, mas quando chegou em Mangaratiba deu azar que a lancha não foi buscar os presos e o tintureiro voltou com eles. Chegaram às 11 horas da manhã. Aí o Feliciano saltou, passou na SD, a seção de controle, e foi embora para a lavanderia da penitenciária. Daí a meia hora, na hora do recreio, estava todo mundo no pátio e Gregório estava sentado bem na beirinha do banco, perto da cantina. Aí o Feliciano veio de lá, com a faca na mão esquerda, e conforme ele passou jogou a faca no coração do Gregório. Entrou mais ou menos dez centímetros, na segunda costela. O Gregório pulou, mas não agüentou mais e caiu. Pegamos ele depressa, mas quando chegamos no hospital, a uns cinqüenta metros depois, ele já estava morto.

Sérgio - Que fim levou o Feliciano?

Levou 67 facadas na Colônia Agrícola, na Ilha Grande.

Chico - Apesar dessa sua resignação em ficar preso, você nunca tentou fugir ou teve vontade de fugir?

Fiz uma fugazinha, mas foi de brincadeira. Foi em 1943, fugi de Laurindo Bita, ali na Boca da Barra. Fugimos eu e o Americano, um preto. Até no jornal saiu assim: "Mais um plano espetacular de Madame Satã; um bailado oriental e um mergulho nas águas escuras de Copacabana."

Sérgio - Mas como é que foi essa fuga?

Eu estava na Casa de Correção, então tinha embarque para a Colônia. Já de lá mesmo começou. Primeiro suicidou-se um, para não ir para a Colônia. Se jogou do terceiro andar. Quer me dar um cigarro, por favor?

Millôr - Quando você nos disse a sua idade todos nós caímos para trás. Me parece que você nunca teve nenhuma doença. Você pretende emplacar cem, fácil?

Eu morro com 84 anos.

Millôr - Sua mãe tem 103 anos, né?

É, 103 anos e viúva quatro vezes.

Millôr - Você tem consciência que é do estofo de homem como você que se fazem líderes. Você se transformou em um marginal. Se você fosse alfabetizado você seria um líder.

Eu vou lhe explicar uma coisa: Deus dá o frio conforme a roupa. Se eu fosse um intelectual, é assim que se fala? Eu não sei dizer essas coisas. Deus disse: faz por onde que eu te ajudo. Mas Deus não me ajudou porque ele sabe que se me ajudasse eu vendia o mundo com o dinheiro dele.

Millôr - De que cidade você é?

Eu sou da terra em que se dá cem cruzeiros por cabresto e não se dá dez por um cavalo. Sou de Glória do Goitá; perto de Governador de Barros.

Chico - Tem uma história que contam, que você não gostava de um delegado e um dia invadiu a Delegacia, pegou o delegado de pau. Como é que foi essa história?

Foi o Frota Aguiar.

Sérgio - Frota Aguiar, que é o presidente do IPEG hoje?

Por mim ele pode ser até presidente da República. Ele vivia me perseguindo. Um dia eu telefonei para ele e disse que era mentira. Ele disse que não era, que ia me dar um pau e me mandar pra cadeia. Então, eu disse pra ele: bem, eu vou falar com o senhor, já sabe que eu vou quebrar a sua cara. Aí eu fui.

Sérgio - E como é que foi?

Quebrei a cara dele e me deram uma surra que quase que me mataram, mas quebrei a cara dele. Ele ia me bater na minha casa, eu já estava lá, lá mesmo apanhava.

Sérgio - Está me chamando atenção uma coisa: você não sabia capoeira, nenhuma luta especial e no entanto você brigava contra rádio-patrulhas?
Eu não brigava, eu me defendia.

Sérgio - Mas você se defendia contra vários e no entanto você não é nenhum atleta. Você tem que altura?

Eu devo ter 1 ,85m, mais ou menos.

Sérgio - E quanto que você pesa?

Agora eu devo estar pesando 73 quilos.

Sérgio - Pois é, você não é um físico privilegiado
.
Naquela época eu pesava 88,89.

Millôr - Você acha que você tem o corpo fechado?

Bom, eu não tenho corpo aberto. Se eu tivesse corpo aberto eu estava fedendo. Fechado eu tenho que ter.

Millôr - Por que você se fixou na idade de 84 anos?

Pode anotar aí. Se o senhor não estiver vivo, talvez seus filhos estejam. Deixe gravado aí porque eu vou morrer com 84 anos.

Millôr - Você disse que é analfabeto. Mas eu queria saber qual é o tipo de informação que você tem a respeito das coisas. Você está sempre a par da política nacional? Você sabe, por exemplo, quem é o presidente da República? Quem é Aristóteles Onassis, casado com a Jacqueline Kennedy?

Eu sei que ele é a primeira fortuna dos Estados Unidos.Agora, o que ele é eu não sei.

Millôr - Charles de Gaulle, você sabe quem é?

Foi durante muitos anos o primeiro-ministro da França, não é?

Millôr - Você sabe o que é um avião supersônico?

Eu não sei explicar muito bem, não.

Millôr - Eu acho que ninguém aqui sabe.

Jaguar - Quando Nelson Cavaquinho foi da polícia, ele nunca te prendeu, não?

Nunca. Nelson Cavaquinho é muito meu amigo, sempre foi.

Jaguar - Mas ele não era civil.

Mas era muito meu amigo.

Millôr - Pra você saber como você é um homem glorioso na história do Rio de Janeiro, eu já escrevi um show musical em que tinha um quadro em que você entrava. Você brigava na Lapa com uma rádio-patrulha inteira, eles não tinham maneira de prender você. De repente eles empurram você em cima de um carrinho-de-mão, te amarram e saem no pau com você no carrinho-de-mão amarrado. Isso nunca aconteceu, não?

Aconteceu quase igual. Antes de vir a Viúva Alegre eu saí muitas vezes num carrinho-de-mão amarrado.

Millôr - Que coisa impressionante! Eu não sabia disso.

Fortuna - O que era a Viúva Alegre e por que tinha esse nome?

A Viúva Alegre era um carro de polícia assim como esses jipes, mas não era bacana assim. Era um tipo de viúva bem mixa. Era um tipo de jipe com grade em volta era pintado de preto. Depois é que veio o tintureiro.

Millôr - E os seus filhos e a sua mulher?

Eu tenho uma filha que é professora de acordeão e funcionária pública do Ministério da Justiça.Tenho outro que mora em Nova Iguaçu e é delega­do de Polícia.

Millôr - Delegado?

É. Tenho outro que é soldado da polícia e tem uma que mora em Belém do Pará.

Chico - São filhos de criação, não é?

São.

Millôr - Você não ganha ordenado?

Não, eu tenho ordenado. Eu crio galinha, crio pato, dou peixadas, cozinho em festas de casamento, faço tudo.

Millôr - Você não cobra um preço por isso?

Eu cobro, mas não é todo dia que se encontra um casamento, né?

Sérgio - Se alguém quiser utilizar os seus serviços o que faz? Se uma família quiser que você faça uma peixada, como é que faz?

É só escrever: Ilha Grande, Vila Abraão, Madame Satã.

Millôr - Apesar de toda luta que você teve na vida, se você tiver que dizer alguma coisa sobre a sua vida você vai dizer que você foi um homem feliz?
Eu fui sempre um homem muito feliz porque, graças a Deus, eu fui sempre um sujeito de muita saúde.

Francis - Talvez você não conheça a pessoa, mas é um grande elogio. Você é muito mais autêntico e muito mais sofisticado do que Jean Genet. Você conheceu um homem chamado Fra de Ávalo?

Não.

Sérgio - E Manuel Bandeira?

Manuel Bandeira?

Sérgio - Morava no beco.

No Beco das Carmelitas?

Sérgio - É

Não, assim de nome, não.

Sérgio - E Carlos Lacerda?

O governador Carlos Lacerda? Eu conheci muito o falecido pai dele, conheci menino ainda. O Carlos passeava sempre na Lapa quando era rapazinho.

Millôr - Odilo Costa Filho?

Não, eu conheci um Odilo que hoje é major da polícia.

Millôr - Mário de Andrade?

O Mário de Andrade que eu conheci era bicheiro.

Millôr - Você conheceu algum jornalista, intelectual, escritor, daquele tempo?
O jornalista que eu conheci lá foi o falecido Mário dos Santos e um tal de Macedo.

Chico - Satã, você respondeu os seus processos sob vários nomes. Quantos nomes você tem?

Acho que uns cinco só. Gilvan Vasconcelos Dutra, Satã Etambatajá.

Millôr - É francês?

Etambatajá não é francês não, é indígena. Tem ainda Gilvan da Silva e Pedro Filismino. Quando um nome tava muito cheio de processo eu dava outro.

Millôr - Você conheceu um cara famosíssimo na vida marginal, o Meneghetti?
O Meneghetti não era marginal, era ladrão de jóias. Eu tirei cana dura com ele em São Paulo. Ainda até pouco tempo ele estava recolhendo dinheiro para pagar a passagem dele para a Itália. Ele podia dar um curso de ladroagem, foi um dos maiores ladrões de jóias. Ele e o Alexandre Lacombe.

Millôr - Você ouviu falar no Febrônio?

Índio Febrônio do Brasil

Sérgio - Como é que é? Febrônio Índio do Brasil?

Não, Índio Febrônio do Brasil.

Millôr - Peraí, vamos esclarecer. Ele pegou garotos, esses troços?

Quando ele praticou aqueles crimes ele morava na avenida Gomes Freire, 115. Ele era dentista. Eu me dava muito bem com ele.

Millôr - Qual foi o crime dele?

Parece que ele matou uns dez ou 12 garotos. Ele matava, enterrava, depois ficava comendo até apodrecer. Quando apodrecia, ele matava outro. Foi para o Manicômio Judiciário.

Francis - Você conheceu um rapaz, eu não sei o nome dele todo, mas eu jogava sinuca muito com ele, malandro muito perigoso. Eu só me lembro do primeiro nome dele: Pedrinho. Sei que ele pegou uma cana feroz.
O Pedrinho do Catete, eu me dava muito com ele.

Francis - Onde é que ele está, hein?

Eu não sei porque a última cadeia que ele tirou foi na Colônia Penal  Cândido Mendes. Depois que ele saiu nunca mais eu vi.

Francis - Ele quis ser meu guarda-costas, uma vez.

Sérgio - E aqueles malandros famosos na Lapa, o Edgar, o Meia-Noite?

O Meia-noite não era propriamente valente. Valente era o fantoche dele, o falecido Tinguá.

Sérgio - O Meia-Noite era bicha?

O Meia-Noite era caso do falecido Tinguá, sempre foi. O Edgarzinho foi um farol que acendeu e apagou logo em seguida. Agora, quem durou mais um pouco foi o Miguelzinho. O Edgar morreu com 26 anos. Fez o primeiro crime ali na rua do Riachuelo, matou o dono do botequim. Foi absolvido porque era menor e logo em seguida fez o segundo crime na rua do Santana. Matou o dono do botequim e o garçom.

Sérgio - E desses compositores: Wilson Batista, Ismael Silva e tal, você conheceu?

Wilson Batista eu tive uma briga com ele muito grande quando ele desceu lá do morro com aquela disputa com Noel Rosa. Foi outra briga que eu tive. Foi ali na Galeria Cruzeiro, ele saiu correndo por ali. Foi quando ele tirou aquele samba "Rapaz Folgado", pro Noel.

Sérgio - E o Ismael Silva?

Ismael Silva preto? Ele estava sempre ali na Lapa. Era bom sujeito só que quando bebia muito ficava chato.

Francis - E os cabarés?

Cabarés tinham muitos. Tinha o da Anita Gagliano, o Cu  da Mãe. Sabe ali na esquina onde tem o Metro? Tinha o Bar-Cabaré Cu da Mãe, de Anita Gagliano.

Chico - Mas esse nome era escrito?

Era escrito. Tinha uma placa luminosa grande.

Sérgio - Daria pra você dar a receita de um prato que você goste de fazer?

Eu gosto de fazer uma peixada de coco, um peixe com banana. O peixe ao leite de coco é assim: o peixe é cavala, é anchova, badejo, robalo, que na minha terra chama-se camurim.

Jaguar - Pra jazer um prato pra seis pessoas, por exemplo, que quantidade de peixe precisa?

Pega-se uns dois quilos de badejo, por exemplo, que não seja a parte com cabeça porque a cabeça do peixe é uma das partes principais para o tempero do peixe. Então, se pega: cheiro, cebolinha, hortelã, tudo bem picadinho. Depois se pega o peixe, bota numa panela, coloca-se um pouco de vinagre, o tempero completo, cebola, alho, sal e se deixa uma meia hora no aviandalho. Depois se bota ele no fogo com um pouco de azeite e coloca um pouco de água mais ou menos cobrindo o peixe. Aí se bota massa de tomate ou tomate. Se quiser branco não se põe tomate. Quando ele está fervendo, que se nota bem que o peixe está cozido, se escorre aquela água. Com aquela água se faz o pirão. Se faz o pirão e se mexe com azeite português, um azeite bom. Depois se deita o peixe no prato, deixa o prato colocado ali perto do fogo e se faz novo tempero. Quando aquele novo tempero estiver fervendo, então se coloca o leite de coco. De preferência o coco raspado e não ralado.

Jaguar - No liquidificador?

É isso mesmo. Eu não entendo bem essas coisas, essa linguagem assim é dificil de eu dizer. Então, a gente pega uma colher e se raspa o coco. É assim que eu faço, dá muito bem pra se raspar. Depois se põe um pouquinho d'água fervendo naquele coco e machuca ele bem com as mãos, bem amassadinho. Depois se escorre aquele copo de leite e se coloca em cima do peixe. Logo que abrir a fervura, se tira e se coloca o tempero em cima e abafa. Está pronto o peixe ao leite de coco.

Jaguar - E faz um arrozinho pra acompanhar, não é?

Ah, faz um arrozinho. Agora, se quiser fazer o arroz com leite de coco também pode. De preferência nunca se deve fazer o arroz branco. Eu, pelo menos, não gosto de arroz branco e considero comida de hospital. Eu gosto de um arrozinho corado, mas não tão vermelho.

Sérgio - Qual foi pra você o maior malandro do Rio de Janeiro?

O maior malandro do Rio de Janeiro que eu conheci de 1907 até a época de hoje foi o que me ensinou a ser malandro e me conheceu com 9 anos de idade, foi o falecido Sete Coroas, que morreu em 1923. Quando ele morreu já me deixou como substituto dele, na Saúde e na Lapa.

Garcez - E o Brancura?

O Brancura nunca foi malandro em negócio de briga. O negócio dele era cafetizar escrava branca.

Garcez - E o Baiaco?

O negócio dele também era escrava branca. Quando ele estava no auge dele, teve dez mulheres.

Garcez - O Sete Coroas vivia de quê?

Ele chegou da Bahia em 1928 no Rio de Janeiro. Veio viver aqui na Lapa, na Ladeira de Santa Teresa, encostado nos Arcos. Depois ele mudou para Saúde e vivia do nome, porque ele barbarizou muito na Bahia e já veio pra aqui com o nome grande. Aqui ele ajuntou-se com a falecida Catita do 34, na Joaquim Silva, e criou nome.

Fortuna - O que você vai comer?

Eu quero um bife mal passado com cebola crua e uma Caracu. Sempre foi a minha comida durante quarenta anos de malandragem. Uma vez eu tomei um porre de Caracu, foi o maior porre que eu tomei na minha vida. Tomei uma caixa de Caracu de manhã cedinho e depois não chamava nem cachorro. Se vocês quiserem vocês podem dar o prazer de almoçar na minha casa. Na minha casa não, porque pobre não tem casa. Na minha maloca. Eu vou fazer um pato ao molho pardo pra vocês lá na Ilha Grande.

Jaguar - É uma boa dica.

O Nelson Pereira dos Santos me levou num tal de Saracura, um restaurante ali no posto 4, que tem comida do Norte, eu comi um pato no tucupi que pelo amor de Deus. De pato só tem o nome e de tucupi só tinha água.

Chega na nossa mesa o Lido, da Lapa, que vende bilhetes de loterias há cinqüenta anos, na Lapa. Começou vendendo na porta do Capela. Conhece muito o Satã, que pergunta qual era o apelido da Araci de Almeida.

Lido - Bituca.

Satã reclama da comida e chama o garçom.
Vem cá, eu pedi um bife, não um pedaço de sola. Você sabe que eu sou freguês do Capela há mais de quarenta anos.
O garçom leva o bife dele e traz outro.
Agora sim, é um bife.

Chico - Você conheceu ou viu o Getúlio?

Vi, falei, conheci por causa da amizade que eu tinha com o Gregório.
Chico - E o que você diz dele?
Para mim o Getúlio Vargas foi um dos homens que mais favoreceram a classe pobre do Brasil e que mais aniquilou o país.

Garcez - Você conheceu o Prestes nessa época de cadeia?

General Luís Carlos Prestes? Eu tirei cadeia com ele na Casa de Correção. Ele, Elias Toras e doutor Belmiro Valverde. O Prestes foi um grande companheiro e as regalias dele eram as mesmas que as minhas. O direito que ele tinha eu tinha.

Jaguar - Quais outros presos políticos que estiveram em sua companhia?

No meu tempo teve esse menino, o Agildo Barata, um engenheiro não sei o que Pinto, o Graciliano Ramos.

Jaguar - Diz alguma coisa sobre o Graciliano Ramos.

Isso é meio difícil, porque ele era preso político e eu era preso comum.

Jaguar - Eles eram bem tratados?

Os presos políticos do Brasil, na época de Getúlio Vargas, sempre foram bem tratados e muito bem acolhidos.

Fortuna - Bem acolhidos não há a menor dúvida
.
Millôr - Você conheceu o Manso de Paiva, que assassinou o Pinheiro Machado?

Conheci na Casa de Correção. Foi um bom detento, nunca deu alteração. Ele tirou 19 anos de cadeia dentro da cela número 2 da Casa de Correção.

Jaguar - Era manso, mesmo.

Fortuna - Qual é a sua concepção da Lapa de hoje?

Olha, enquanto eu for vivo a Lapa não morrerá".

Gramsci: da Arte à "Pedofilia" 5

Quero pedir escusas para os leitores pela demora em escrever a sequencia do ensaio que estou fazendo sobre a obra de Antonio Gramsci, mas a...